Como desarmar a cultura woke — uma resenha reflexiva

Pode-se pensar que fazer frente à cultura woke seja uma “perseguição conservadora” a uma corrente de pensamento divergente. Afinal, é o que os wokes desejam impor — o que não corresponde à realidade, pelos motivos que serão expostos a seguir.

O cerne do pensamento woke, também chamado de Justiça Social em Perspectiva Crítica, não está propriamente em uma proposta política específica, mas em uma negação epistemológica: de que não é possível conhecer a realidade objetiva. O que se chama de “conhecimento” seria apenas uma construção social, produzida por grupos opressores sobre grupos oprimidos, em razão de identidades grupais.

Nesse contexto, abandona-se o argumento ad rem — o exame da coisa em si — e se passa a operar no argumento ad hominem, no qual o valor de uma afirmação depende não do que é dito, mas de quem disse — e de qual grupo (opressor ou oprimido) representa.

Para agravar esse quadro, qualquer pessoa que não se oponha ativamente ao que é chamado de “opressão” torna-se automaticamente um “opressor”. Não se trata de uma classificação neutra, implicando a necessidade de neutralização, isto é, exclusão do espaço público. Um exemplo extremo (e real) é o assassinato de Charlie Kirk durante um evento universitário em setembro de 2025.

Portanto, o woke não aceita nenhuma visão de mundo que não seja a sua, e não reconhece qualquer outra concepção de bem comum que não passe pelo seu filtro ideológico. Séculos de Filosofia, Ciência e Teologia são reduzidos a uma leitura binária de “opressores e oprimidos”. Aos primeiros cabe o silenciamento; aos segundos, não raro, a desforra. E o episódio mencionado no parágrafo anterior mostra até que ponto podem chegar para levar a cabo essa visão de mundo.

Interessante notar que a literatura woke, sobretudo a acadêmica, é densa, truncada e deliberadamente inacessível para os que estão fora do círculo militante. A atuação política depende de uma linguagem quase criptografada, na qual palavras comuns são distorcidas e passam a carregar significados ideológicos específicos. Dessa forma, agendas inteiras avançam sob a aparência de inocuidade, enquanto os demais são constrangidos a aceitar termos cujo conteúdo real desconhecem.

Como os wokes agem

A estratégia de atuação, sobretudo nos estágios iniciais, é discreta, tornando-se mais explícita à medida que cresce o apoio interno e aumenta o silêncio dos divergentes. Esse silêncio não é espontâneo: é produzido por meio do constrangimento moral, do escândalo público e da perseguição institucional.

O livro expõe esse processo, chamado de enraizamento, por meio de estratagemas, com destaque para a confusão deliberada no uso das palavras e para a informalidade sistemática buscada pelos wokes. Em ambos os casos, abre-se espaço para a distorção da realidade, por onde o movimento atua.

A palavra “crítica” é um exemplo emblemático. Para o senso comum, lembrando de Chesterton, significa o exame racional e ponderado; mas para o woke, remete a uma leitura ideológica específica. Inserir esse termo em um currículo universitário, por exemplo, não é um gesto neutro, mas é uma forma indireta de direcionar contratações para profissionais woke, excluindo os demais.

A informalidade funciona de modo semelhante. O “dito pelo não dito” torna-se regra, adiando decisões importantes e permitindo o avanço de pautas sem deliberação clara. Aquilo que o woke chama de “organicidade” é, na prática, o caos para qualquer pessoa que dependa de critérios objetivos e registros formais para trabalhar.

Cabe aqui também uma postura comumente praticada pelo movimento quando está em situação de revés: o comportamento passivo-agressivo. Trata-se de um conjunto de atitudes com vistas a sabotar o que lhe é inconveniente sem expor sua insatisfação.

O que fazer?

A oposição ao movimento woke não é um ataque à pluralidade, mas é defesa dessa — antes que seja silenciada. Quando um woke fala em “diversidade”, estão excluídos dela todos os grupos considerados “opressores”, o que expõe uma contradição interna: a pluralidade é apenas para quem adere ao movimento.

Ao contrário do que se imagina, a contenção desse avanço não exige gestos heroicos. Exigir formalidade — atas, registros, linguagem precisa, até o tratamento respeitoso — já reduz consideravelmente o poder de imposição do woke, que depende da informalidade para constranger e avançar sem resistência.

Lutar pelas palavras também é essencial. Permitir a distorção da linguagem é abrir mão do próprio pensamento. A língua evolui pelo uso coletivo, sem perder sua essência; quando um grupo passa a direcioná-la deliberadamente há controle da sociedade pelo pensamento.

Por fim, não deixar de falar é imperativo. Tornar-se “o chato da história” faz parte da vida cristã, que ensina a não se conformar com o mundo para buscar a Pátria Celeste. Se, por dizer a verdade, alguém se torna persona non grata, convém perguntar: a quem se agradou — Deus ou o mundo?

A urgência de Santo Tomás de Aquino

O livro parte de uma perspectiva liberal, o que o torna insuficiente diante do fenômeno woke. Sem um princípio ordenador, a liberdade como fim em si mesma acaba abrindo espaço para forças que a destroem. Não há moralidade sem algo perene que a ordene.

Esse princípio é o próprio Deus, princípio e fim de todas as coisas. Por isso torna-se urgente retornar a Santo Tomás de Aquino, que integrou a filosofia clássica à Revelação em uma estrutura coerente, fundada em dois pilares: a existência da realidade objetiva e a capacidade do ser humano de alcançá-la através dos sentidos.

Santo Tomás sempre foi aberto a divergências intelectuais, como demonstram as Quaestiones Quodlibetales, nas quais nunca se furtou ao debate. Sua oposição mais firme deu-se com a doutrina do duplo intelecto, defendida por Siger de Brabante em sua interpretação de Averróis e outros aristotélicos árabes, por um motivo deveras especial: tal noção implode a unidade da verdade e a própria possibilidade de conhecimento.

O trecho final Da Unidade do Intelecto sintetiza bem o espírito que deve animar a defesa da verdade e da realidade:

“Se alguém, em sua vanglória, com uma ciência de nome falso, quiser dizer algo contra o que escrevemos, que não fale nos cantos nem diante de crianças que não sabem julgar sobre coisas tão difíceis; mas que responda a este escrito, se ousar; e encontrará não só a mim, que sou o menor de todos, mas muitos outros zeladores da verdade, pelos quais seu erro será resistido ou sua ignorância corrigida.”

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