
Hereges transcende a proximidade jornalística de Chesterton para se tornar um farol de sanidade frente à insanidade que passou a dominar o mundo. Chesterton conviveu e testemunhou o avanço daqueles que ele nomeou hereges — pessoas que distorcem a realidade, logo, a teologia cristã — contra quem combateu um bom combate ao longo de sua vida.
Não é difícil reconhecer que vivemos uma época em que os hereges tomaram o poder sem sequer esconder que estão errados — e agora colhem-se as consequências. Pior ainda: busca-se pelo erro por ser erro; deleita-se com o caos, com a destruição progressiva da humanidade de uma Revolução constante, que jamais se satisfaz.
Retornar a Hereges é compreender por que é necessário lutar contra o que há de errado (inclusive o título original de outro livro de Chesterton). O erro não deve ser tolerado; a pessoa errada deve ser convencida de seu engano por meio da caridade. Denunciar o mal é anunciar a esperança do Reino de Deus. Nessas horas, quem cala consente.
Cabe notar que que Chesterton ainda não havia sido batizado quando publicou este livro — algo que ocorreria cerca de uma década depois. Ainda assim, ele sabe que, se há algo errado, é porque há um caminho certo, uma ortodoxia – como, aliás, revela a própria etimologia da palavra.
Chesterton não condena pessoas, mas os erros veiculados por elas. Grandes nomes do pensamento de sua época são citados ao longo das páginas, e suas ideias são analisadas à luz da realidade — ou como o próprio autor diz, sob o ponto de vista do século XIII: o senso comum.
Não são apenas os hábitos que moldam as pessoas, mas sobretudo a filosofia e a religião que elas abraçam. Sem abstrações, sem um ideal, sem uma metafísica a ser defendida, o homem acaba por cair no hedonismo — o prazer pelo prazer — ou no estoicismo moderno, uma apatia impotente. Ideais possuem consequências práticas, ainda que seus efeitos passem despercebidos.
À primeira leitura, Hereges pode parecer mera crítica. Uma releitura, contudo, revela que o livro encontra sua conclusão em Ortodoxia, como duas faces da moeda do senso comum. Chesterton precisa primeiro criticar, expor os erros filosóficos que afundam a sociedade inglesa; provocado por essas distorções, ele apresenta forma límpida o caminho certo — a Igreja Católica.