Pequeno como Paulo: sobre o desejo de pertencer e as redes sociais

C. S. Lewis, na preleção O Círculo Íntimo, admoesta seus ouvintes sobre o problema do pertencimento pelo pertencimento: não compor um grupo onde os valores e a amizade tornam todos melhores — inclusive os que estão fora —, mas sim aquele “grupo fechado” cuja coesão se baseia na exclusão. Seu diferencial está menos na comunhão interna e mais na distinção em relação aos que não pertencem.

Lewis aborda esse tema com densidade no último da Trilogia Cósmica, Aquela Força Medonha. O protagonista deste arco, Mark Studdock, acaba se afastando de sua esposa, Jane, para fazer parte do “grupo fechado” do NICE — um instituto científico associado às forças do Mal, cujo objetivo é subverter a ordem do mundo.

A tentação de pertencer a tão “seleto” grupo, que busca “controlar o mundo”, faz com que Mark abra mão pouco a pouco de seus valores e de sua visão de mundo, deixando-se manipular por pessoas de índole escusa. Já Jane, influenciada pelo feminismo e procurando espaço na vida acadêmica, acaba sendo conduzida, por vias misteriosas, à ação das forças do Bem, graças a sua sensibilidade espiritual.

Expondo os spoilers, ao final da história, o NICE — esse “círculo íntimo” personificado — entra em colapso. Seus membros, mergulhados em um surto de confusão, perdem a capacidade de se comunicar entre si. Em meio ao caos, os animais que haviam sido torturados e usados em experiências se rebelam, e o grupo é destruído.

Esse acaba sendo o fim de todo “círculo íntimo” construído sobre a vaidade e a exclusão: talvez não em sangue, mas em desgraça, esvaziamento ou colapso moral. Grupos verdadeiramente virtuosos promovem concórdia, valores e amizade — não disputas, segredos e vaidades.

O “círculo íntimo” digital

Se olharmos com atenção para o ambiente atual das redes sociais, veremos com clareza essa estrutura de círculos íntimos. Quem testemunhou o surgimento da internet e seu crescimento vertiginoso reconhece bem a formação desses núcleos seletos e o furor dos que desejam apenas “pertencer”.

Cada rede social tem seus círculos: os grandes perfis, que dominam o espaço e as pautas, e os perfis menores, que desejam “crescer” e, no fundo, “pertencer aos grandes”. Repare: o objetivo raramente é apenas difundir uma mensagem verdadeira ou obter algum sustento — mas receber o selo invisível de aprovação e colher suas benesses.

Se fosse apenas pela missão de comunicar, qualquer retorno sincero já seria motivo de gratidão. Mas o próprio modelo das redes estimula o desejo de pertencimento: como alguns membros acabam por controlar aqueles que não pertencem, fazendo até com que sejam excluídos da rede social.

A dificuldade de fazer um perfil crescer, mesmo com conteúdo de qualidade, é evidente. Ao mesmo tempo, vemos perfis que “explodem” sem explicação clara, e depois deixam para trás aqueles que os ajudaram no início. Isso gera ressentimento, inveja e até mesmo sede de vingança. Quando um escândalo atinge os “grandes”, os ressentidos comemoram – ainda que custe a credibilidade de todos.

Ser pequeno, mas fiel

É necessário falar sobre isso. Mesmo que o alcance seja pequeno, mesmo que a entrega seja fraca. Alcance não define qualidade de conteúdo, especialmente hoje (salvo raríssimas exceções). O importante é fazer um trabalho honesto, mesmo que o público seja só a clientela do bairro. Às vezes, o conteúdo chega até alguém como uma mensagem dentro de uma garrafa flutuando no oceano. E isso já basta.

São Paulo adotou esse nome — Paulus, que significa “pequeno” em latim — ao perceber sua condição diante da grandeza de Deus. E o próprio Cristo nos ensinou:

“Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja esse o que vos sirva;
e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso servo.”
(Mateus 20, 26-27; Marcos 9, 35)

Essa não é uma lição apenas para o ambiente familiar ou profissional. É uma verdade para a alma toda, inclusive no uso das redes sociais.

Não são os números do algoritmo que definem o teu valor. É sua paz em repouso no Senhor e sua recusa em vender tua alma por uma vaga no “círculo íntimo”.

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