
Não nego que criei expectativas em relação ao livro: trata-se de uma obra escrita pelo bibliotecário do Mosteiro de São Bento de São Paulo. A proposta de apresentar São Domingos de Gusmão ao grande público, sem excessos de erudição, diante da falta de obras de ampla circulação sobre o assunto, é de encher os olhos.
E o problema está justamente aí: a obra decepciona. Não por ser pequena — o tamanho é razoável para a proposta de brevidade —, mas por ser demasiadamente acadêmica para um livro destinado ao grande público, sobretudo pela forma de escrever.
O grande público não é obrigado a ler masculino e feminino empregados concomitantemente de maneira desnecessária, muito menos a encontrar letras minúsculas onde deveria haver maiúsculas. Por favor, deixem isso para os acadêmicos anticristãos que se dizem ateus. Como os próprios dominicanos lembram: respeito humano é pecado.
A obra também decepciona pelos erros materiais de digitação e de elaboração do texto, que dão a impressão de não ter passado pelas mãos de um revisor. Em tempos de inteligência artificial, tal desleixo chega a ser ofensivo.
Talvez o tamanho e a praticidade sejam seus principais pontos fortes. O relato da devoção do autor a São Domingos, a ponto de quase se tornar dominicano, emociona. Infelizmente, ele não explica por que, ao final, trocou o hábito branco pelo hábito negro, deixando a curiosidade no ar.
Eu também tenho muita devoção por São Domingos. O santo canino marcou a História da Igreja com um carisma que permanece vivo até hoje: cultivar a contemplação por meio do estudo, sem abandonar a oração, e distribuir os frutos dessa contemplação por meio da pregação, muitas vezes pelo ensino.
Ressalta-se, ainda, que o autor aparentemente não consultou um dos clássicos de São Luís Maria Grignion de Montfort, O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, já que a obra não consta na bibliografia. Nela, a vida de São Domingos aparece, inclusive, mais bem apresentada do que no livro em questão.
São Domingos teria recebido o Rosário — com letra maiúscula, por favor — diretamente de Nossa Senhora, após árdua penitência em uma floresta. A “teoria” da criação do Rosário por São Domingos vem da Academia, que busca associá-lo à japamala hindu, conhecida pelos cristãos por intermédio das contas de oração dos muçulmanos, até mesmo como forma de diminuir a importância dessa arma espiritual.
Sim, o Rosário é uma arma e, como tal, foi usado por São Domingos — vide os diversos relatos de exorcismos realizados com o Rosário. Há, inclusive, uma associação errônea entre São Domingos e a criação da Inquisição. De fato, inúmeros dominicanos vieram a integrar suas fileiras com o objetivo de combater as heresias ainda existentes.
Justamente por não se tratar de um livro acadêmico, esses fatos deveriam saltar aos olhos. Em algumas versões da visão da Beata Joana de Aza, a tocha na boca do cachorro incendiaria o mundo. De fato, incendiou, graças a Deus e à Santíssima Virgem.
Vale apontar mais um ponto positivo: a escolha de apresentar alguns dominicanos de destaque ao grande público. No entanto, suprimir São Pio V e São Pedro de Verona para falar de Frei Bartolomé de Las Casas foi, no mínimo, uma escolha suspeita, para não dizer infeliz: Las Casas “fechou os olhos” para as atrocidades praticadas pelos indígenas a fim de condenar a atuação espanhola na América.
Esperava, enfim, um livro mais cristão, mais vivo, sobre o Arauto do Evangelho — epíteto de São Domingos adotado por um grupo religioso brasileiro. Se assim fosse, talvez até os erros de digitação e a concomitância desnecessária de masculino e feminino fossem mais facilmente amenizados pela força do conjunto.