
Espontaneidade não é sinônimo de autenticidade. Na maior parte das vezes, a espontaneidade está mais próxima da brutalidade — no sentido de algo bruto, primitivo —, gerando desconforto em quem está ao redor, inclusive entre amigos. Hoje em dia, associam-se a etiqueta e os bons modos à falsidade, mas até que ponto essa associação é verdadeira?
Ter bons modos, ou boas maneiras, é o mínimo necessário para evitar constranger as pessoas próximas e possibilitar uma convivência minimamente sadia. Mais do que isso, um cristão precisa ser bem-educado: portar-se bem também é expressão de caridade. Cristo era educado com todos à sua volta.
Dê-se o nome e a gradação que se considerar mais adequados: educação, bons modos, cortesia, civilidade, polidez. Alguns desses termos podem designar o mínimo esperado da população em geral; outros, formas mais refinadas de trato associadas a ambientes de maior formalidade. O fato é que, quanto mais educada é uma pessoa, mais agradável tende a ser a convivência com ela.
Não há falsidade em querer agir da melhor maneira possível para com o próximo, mas isso exige autocontrole. Alguns hábitos de boa educação podem hoje parecer absurdos; ainda assim, envolvem disciplina e domínio de si, fundamentais para evitar situações verdadeiramente constrangedoras. Conter-se diante de uma provocação é uma expressão de caridade; entregar-se espontaneamente a ela pode ter consequências catastróficas.
A boa educação funciona como uma linguagem social. Pode variar conforme a época e a região, mas continua existindo mesmo quando determinados segmentos da sociedade procuram depreciá-la. Rotular um comportamento educado como falso não o torna ruim. Por vezes, um gesto polido, ainda que afetado ou deliberado, é mais agradável do que uma atitude espontânea e puramente instintiva.
A ideia de estimular a espontaneidade serve como justificativa para afrontas na convivência social sob o argumento de “tolerância”: tolera-se qualquer comportamento, mesmo o desrespeitoso, enquanto se condena a crítica. A espontaneidade torna-se, então, uma arma de provocação contra um alvo que pouco pode fazer a respeito além de respirar fundo e manter a compostura.
É difícil ser educado. Mais difícil ainda é corrigir maus modos arraigados pelo tempo e reforçados por uma contracultura que os impõe continuamente. Há, porém, uma boa causa para esse esforço: o amor ao próximo. Ser educado é uma expressão simples de caridade. Tomar banho para poupar o outro do mau odor ou vestir-se com o mínimo de decência para não constrangê-lo são exemplos de pequenos cuidados que podem tornar a convivência muito melhor.